Adentrar no processo criativo de um compositor é uma maneira fascinante de navegar pelo universo infinito de possibilidades da composição musical, assim como nas escolhas, nos caminhos e nas referências musicais e “externas” que inspiraram a criação de suas obras.

A composição guarda algum mistério, e o compositor pode jogar luz sobre o vasto terreno da criação. Assim, conhecer seu olhar sobre essa atividade é uma forma de ampliar nossa percepção sobre a música para além de sua estrutura, o que invariavelmente trará uma maior compreensão dessa arte. Ao intérprete, cabe uma escuta ativa das obras e uma leitura atenta do pensamento e das ideias do compositor, a fim de buscar caminhos inexplorados para o próprio fazer musical.

Oiliam Lanna, compositor, maestro e professor no curso de composição da Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), conhece em profundidade o ofício de criar. Sua obra abrange peças solo, de música de câmara e orquestrais (ouça as belas Duas melodias e Homenagem a César Franck para apreciar a escrita elegante do compositor).

Nesta entrevista, Oiliam discorre sobre o seu processo criativo, o lugar da criação na formação dos intérpretes e a inserção da música contemporânea nos programas de concerto, bem como o papel de universidades e conservatórios na divulgação dessa música.

Concertista: Ao iniciar uma composição, o senhor se guia mais pela intuição, pela técnica ou por referências “externas” à música?
Oiliam Lanna: As referências “externas” ocupam lugar de destaque em meu processo composicional. Tais referências podem ser provocadas por imagens visuais, textos literários ou mesmo por situações e ocorrências as mais diversas. Por outro lado, cada obra estabelece um amplo diálogo com um universo de outras obras, minhas e de outros compositores. Esse diálogo, nem sempre consciente, pode aparecer na obra que componho, ou ficar quase totalmente escondido na trama composicional. As questões técnicas estão a serviço da expressão que procuro.

Concertista: Como foi o processo de composição da obra Minas – Vertentes, Mistério, Celebração?
Oiliam Lanna: Minas – Vertentes, Mistério, Celebração, pelo título mesmo, aponta para referências “externas”. Essas referências foram o ponto de partida, o estímulo para a procura de impressões musicais que pudessem, de alguma forma, corresponder às imagens, contextos, sons, cores e luzes evocados pelo título da obra.

A referências ‘externas’ ocupam lugar de destaque em meu processo composicional.

Concertista: No repertório das orquestras, grupos de câmara e solistas, a música de outros períodos tem preferência em relação à música contemporânea. O que poderia ser feito para que essa música fosse tocada com mais regularidade?
Oiliam Lanna: Temos, ao lado da música contemporânea, pelo menos três séculos de música instrumental para formações as mais diversas, sem falar no imenso repertório de música vocal, que remonta à Idade Média e que continua a despertar interesse. O diálogo com esse imenso repertório continua vivo, de formas e em graus diversos, mas bastante forte com muitas estéticas, linguagens composicionais, obras e compositores.

A difusão da música contemporânea, e mesmo de grande parte da produção musical do século XX, tem sido feita em doses homeopáticas. Certamente, todas as ações no sentido da difusão não apenas de obras recentes, mas também das obras que ainda hoje requerem algum esforço do ouvinte – músico ou leigo -, precisam ser empreendidas levando-se em consideração diversos fatores.

Entre eles, está a busca da compreensão do como e do porquê o grande público reage, desta ou daquela maneira, diante de um repertório que exige abandonar uma certa zona de conforto. Esse repertório, muitas vezes restrito a eventos tais como festivais ou cursos, deve também estar presente nas grandes salas de concerto, ao lado de obras com linguagens mais tradicionais. Programas assim idealizados dão ao público a oportunidade de ampliar sua capacidade de percepção e de fruição, em espaços nos quais as fronteiras de linguagens e estilos podem ser percebidas como convite para a exploração de novos territórios.

Concertista: Qual o papel das faculdades e conservatórios na divulgação da música contemporânea e na formação de intérpretes dedicados a ela?
Oiliam Lanna: A atuação dos conservatórios no que diz respeito à divulgação da música contemporânea é ainda incipiente. Os conservatórios estaduais, em Minas, para citar um exemplo, dedicam-se sobretudo à formação de intérpretes – cantores e instrumentistas – com foco principal no repertório clássico-romântico (Bach é quase a honrosa exceção do período Barroco) e, mais recentemente, no repertório da música popular.

Ações para a ampliação dos horizontes dessa formação têm sido empreendidas através de projetos específicos, cujos resultados já se fazem sentir, e tais ações serão ainda mais efetivas na medida em que passem a visar ao aprimoramento da formação do corpo docente dessas instituições.

Por seu turno, as universidades devem dar conta de um estudo muito amplo, no qual a música contemporânea divide espaço com um repertório “tradicional”, cuja importância é inegável para a formação do intérprete. O espaço para as músicas dos séculos XX e XXI deve ser conquistado, não imposto. Penso que, entre as estratégias, nesta direção, está o convencimento de que os repertórios não são mutuamente exclusivos, mas podem ser mutuamente enriquecedores.

Concertista: Ao longo dos séculos, os instrumentistas foram se afastando da improvisação, da criação de arranjos ou mesmo de peças e hoje se formam tendo pouca ou nenhuma experiência com essas atividades. Como o senhor observa essa separação entre criação e interpretação na formação dos intérpretes?
Oiliam Lanna: Improvisar cadências, ornamentar melodias, criar a partir de um tema dado eram práticas correntes, por exemplo, entre os intérpretes dos períodos Clássico e Barroco, nos quais muitos instrumentistas eram também compositores. Tais práticas dependem de um conhecimento aprofundado do discurso musical, conhecimento, hoje, quase ausente da formação do instrumentista dedicado à música erudita de concerto. As noções de estilo, de procedimentos e de processos composicionais, fundamentais para a criação, certamente contribuiriam para uma melhor compreensão das obras e para uma interpretação mais rica em sentido.

Concertista: Gostaria que deixasse uma mensagem para o estudante que deseja se dedicar à composição.
Oiliam Lanna: A voz do outro perpassa obras de compositores de todas as épocas. Estudar, analisar, buscar compreender como isso ocorre parece-me um bom aprendizado. Mas é fundamental buscar a própria voz, no diálogo com um amplo repertório de linguagens e estéticas as mais diversas, diálogo que, a meu ver, deve ultrapassar as fronteiras da Música. ◆

OBRAS PARA ORQUESTRA E GRUPOS DE CÂMARA

  • Minas – Vertentes, Mistério, Celebração (estreou no dia 17/09/2015 na Sala Minas Gerais, com a Filarmônica de Minas sob a regência de Fábio Mechetti)
  • Prelúdio e Allegro (trombone e orquestra)
  • Homenagem a César Franck
  • Pièce pour orquestre
  • Rituais do Tempo
  • Sortilégios da Lua (orquestra de cordas)
  • Estudo de Cores e Formas (orquestra de cordas)
  • Gitanjali (para mezzo soprano e 15 instrumentistas)
  • Tramas da Memória (grupo camerístico)
  • Vitrais (grupo camerístico)

Publicado no primeiro número da revista CONCERTISTA.

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