Por Carolina Valverde

Corpo-Movimento-Música, trinômio absolutamente indissociável. Não há música sem movimento. Não há músico que se mantenha em performance musical sem saúde corporal. Então por que este se trata de um assunto tão pouco conversado entre os músicos e os profissionais da área de saúde em geral? Por que a importância dada a tudo o que se refere à sonoridade ganha do que é relativo à corporeidade?

É por isso e por muito mais, que aceitei com alegria o convite de escrever para esta revista e para mais uma comunidade de leitores músicos. “Tiro o chapéu” para cada atitude de promoção de saúde, para cada um que se ocupa com o fato de que músicos são, antes, seres corporais! Parabéns aos que pensaram na importância deste assunto para uma revista sobre música.

Tenho escrito muito sobre o assunto “Saúde do Músico” em publicações jornalísticas e científicas, há mais de 20 anos e, neste texto, achei importante fazer uma compilação, como se fosse uma revisão bibliográfica, de alguns poucos textos para vocês, leitores.

Nos últimos 20 anos, instrumentistas têm voltado seus olhares para a consciência do uso corporal durante a performance musical, principalmente fora do Brasil. Profissionais da área de saúde, especialmente os da reabilitação física, têm se deparado com um grande número de pacientes músicos em seus consultórios. Trata-se de uma realidade mais frequente do que se imagina, fazendo-se necessário um aprofundamento nos estudos relacionados à saúde física do músico.
Vou começar com algumas perguntas que só fazem sentido se uma primeira for respondida:
Músico, você já sentiu ou sente algum incômodo corporal durante, após ou por causa de sua atuação musical?

De duas uma: se a resposta for “sim”, continue lendo este artigo, pois ele pode ser útil a você. Se sua resposta for “não”, quem sabe você deveria continuar lendo para que continue assim, sempre saudável? Então, vamos ao que interessa. Pense sobre cada uma destas questões:
– Por que alguns músicos sofrem em silêncio?
– Por que não buscam ajuda especializada?
– Será que o custo biológico de uma lesão crônica, que pode levar a uma disfunção, vale a pena?
– Não seria prejudicial o músico continuar no circuito profissional apesar dos sintomas não declarados?
– Será que esses problemas de saúde não podem acabar por, em algum momento, forçar um afastamento definitivo desse músico?
– Até que ponto a crença do “no pain, no gain” ainda existe no meio musical?
– Será que os músicos acham que dizer que sofrem vai colocá-los em exposição quanto à técnica que utilizam?
– Será que alguns professores omitem suas dores para que os alunos não deixem de confiar neles? Para não saírem do lugar de mestres?

Essas e outras várias perguntas passam pela minha cabeça nesses mais de vinte anos atendendo músicos no meu consultório e muitas delas ainda estão sem respostas. São pontos de partida para reflexões que podem tornar a vida de um músico longeva e saudável ou, infelizmente, sofrida.

Existem vários motivos pelos quais esse assunto deveria ser mais abordado na comunidade musical e na área da saúde. Há um visível despreparo dos profissionais de saúde no trato com pacientes músicos. Alguns autores já têm se preocupado com a falta de comunicação entre essas duas áreas que fazem parte expressiva do cotidiano das pessoas e acreditam que, de forma geral, médicos e outros profissionais de saúde não estão capacitados para entender e posteriormente solucionar os problemas físicos dos músicos com eficiência suficiente. (FRANK e MÜHLEN, 2006; ROSET-LLOBET et al., 2000; FONSECA, 2007). DAWSON (1998) acrescenta que encontrar um profissional de saúde que entenda dos problemas físicos do músico é um desafio, por existirem poucos que possuem o conhecimento e a habilidade para tratar dessa questão tão específica. “Poucos deles falam a linguagem do músico e, ao mesmo tempo, poucos músicos conhecem os jargões médicos ou sabem algo sobre a função e a estrutura do corpo” (DAWSON, 1998).

Não existem, também, cursos de especialização oficializados em Fisioterapia que motivem a realização de investigações sérias na área da Saúde do Músico. Segundo GREEF (2003), “[…] as terapias clássicas que estão focalizadas somente no relaxamento, na medicação, na Fisioterapia tradicional e na cirurgia têm se mostrado inadequadas na solução dos problemas das DMRP’s (Doenças Musculoesqueléticas Relacionadas à Performance).

Concordo com FRANK e MÜHLEN (2006), pois realmente tenho percebido, a partir da experiência clínica, que, se durante o tratamento das DMRP’s, o terapeuta ou médico não se familiarizar com o universo do músico, não conhecer as questões técnicas dos instrumentos e avaliar o seu comportamento corporal em performance, será improvável que consiga reconhecer tanto as possíveis origens dos problemas físicos por eles apresentados quanto as soluções. ZAZA (1998) acredita que a Medicina das Artes da Performance seja um campo em desenvolvimento; mas, mesmo assim, os problemas de saúde dos músicos permanecem menos reconhecidos e menos pesquisados do que deveriam ser.

Da mesma forma, há uma falta de informação e orientação por parte dos músicos quanto à importância de maior consciência relativa ao funcionamento básico de seu corpo durante a performance. Normalmente, nas escolas de música, não é dada ênfase ao conhecimento da demanda de trabalho das estruturas do corpo envolvidas no ato de tocar um instrumento musical e os possíveis problemas físicos que poderão dificultar a atuação do músico instrumentista (MOURA et al., 2000). Além disso, não se tem notícia de que existam escolas de música no Brasil que incluam, em seu currículo básico da graduação, disciplinas relacionadas com o conhecimento de Anatomia e Fisiologia Humana e suas implicações para a prática com o instrumento. Adicionalmente, não há uma consciência por parte da maioria dos músicos quanto à importância de se consultar profissionais da área da saúde, quando surgem sintomas de problemas físicos devido ao estudo e à performance do instrumento (LLOBET et al., 2000).

São muitas as evidências que apontam para a seriedade deste assunto. São muitos os músicos me procurando com suas carreiras interrompidas e é muita, muita coisa para conversar sobre isso tudo! Músico, não espere as dores se tornarem lesões instaladas, não construa uma história musical com baixa qualidade de vida e saúde. Busque ajuda ao primeiro sinal de que há algo que não está a seu favor e acredite: sua música também ganha com isso, diretamente!

Referências bibliográficas:
ALVES, C. – Coluna “Saúde do Músico” da Revista Musical do SINDI-MUSI R.J. – vários artigos.

ALVES, C. Padrões físicos inadequados em estudantes de violino na performance musical. 2008. 153 f. Dissertação (Mestrado em Música) – Escola de Música, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2008.

DAWSON, W. J. Playing with Pain – Help for Muscular and Skeletal Problems in the Double Reed Musician, Arts-Medicine Clinics. Illinois: United States Facilities, jan,1998.

FONSECA, J. G, Frequência dos problemas neuromusculares ocupacionais de pianistas e sua relação com a técnica pianística – uma leitura transdisciplinar da medicina do músico. Tese de Doutorado. Escola de Medicina da UFMG, 2007.

FRANK, A.; MÜHLEN, C. A. Queixas musculoesqueléticas em músicos: prevalência e fatores de risco. Revista Brasileira de Reumatologia, Alemanha, Playing-related musculoskeletal complaints among musicians: prevalence and risk factors. 2006.

GREEF, M.; WIJCK; REYNDERS, K.; TOUSSAINT, J.; HESSELING, R. Impact of the Groningen Exercise Therapy for Symphony Orchestra Musicians Programon Perceived Physical Competence and Playing-Related Musculoskeletal Disorders of Professional Musicians, Medical Problems of Performing Artists. 18:156-160, 2003.

LLOBET, J, R. Problemas de Salud de los músicos y su relación con la educación. XXVI Conferencia de la International Society for Musical Education y Seminario de la CEPROM. Barcelona e Tenerife, 2004.

MOURA, R. C. R.; FONTES, S.V. & FUKUJIMA, M.M. Doenças Ocupacionais em Músicos: uma Abordagem Fisioterapêutica. Rev. Neurociências, n.8, v.3, p.103-107,2000.

ROSET-LLOBET, J.; ROSINÉS-CUBELLS, D.; SALÓ-ORFILA J. Identification of Risk Factors for Musicians in Catalonia (Spain), Medical Problems of Performing Artists. 15:167–174, 2000.

ZAZA C. Playing-related musculoskeletal disorders in musicians: a systematic review of incidence and prevalence. Canadian Medical Association Journal, v.158, n. 8, p.1019-1025: Canadian Medical Association, 1998.


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