Pesquise no dicionário a palavra vocação e você encontrará a seguinte definição: vocação, do latim, vocare. Ato ou efeito de chamar; inclinação para uma atividade, profissão, ofício; talento, pendor, etc. Ligia Amadio não precisou de dicionário para entender o significado e o peso dessa palavra em sua vida. É que a maestrina sempre soube o caminho que deveria seguir, pois a música (e a vocação para ela) estiveram presentes na sua vida desde a infância. Porém, o sonho de ser uma musicista profissional foi adiado por alguns anos. No momento de escolher a profissão, optou por cursar engenharia na USP (mais pelas circunstâncias da época do que por vontade própria). Ela se formou, mas não seguiu a carreira, pois queria a música e, quando menos esperava, o destino se encarregou de conduzi-la ao seu sonho.

Foi em uma carona despretensiosa para uma amiga que a música voltou para a vida de Ligia, para nunca mais abandoná-la. O destino? Um teste para o coral da USP. Enquanto aguardava a amiga, foi convidada pela maestrina para fazê-lo. A princípio, recusou, mas, já que estava por lá e amava música, por que não tentar? Fez, passou e, em uma semana, era pianista assistente do coral. Finalmente, a futura maestrina se reencontrava com sua vocação.

Da Poli-USP foi para o curso de regência da UNICAMP. Agora em seu habitat natural, Ligia se entregou aos estudos. A dedicação de corpo e alma pavimentou o caminho para uma carreira brilhante. A maestrina está à frente da Orquestra Filarmônica de Montevidéu, no Uruguai. Foi premiada no Concurso Internacional de Tóquio (1997), no II Concurso Latino-Americano para Regentes de Orquestra em Santiago do Chile (1998) e, em 2001, foi eleita Regente do Ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte.

Para fazer uma pessoa entender como um artista constrói uma interpretação, seria preciso fazê-la viver na pele desse artista.

Concertista: Como você constrói a sua interpretação das obras orquestrais e a sonoridade das orquestras nas quais é regente?
Ligia Amadio: A resposta a esta questão seria tão complexa quanto a resposta de um arquiteto de uma catedral a quem lhe fizesse uma pergunta análoga…O que poderia eu dizer que não fosse demasiadamente simplista? Que uma interpretação é construída por meio do estudo e da vivência das mais variadas disciplinas da música e da cultura por décadas, por uma visão e uma percepção que são sempre únicas e multifacetadas, por um acúmulo de técnicas desenvolvidas ao longo de toda uma vida, pelo conhecimento profundo de inumeráveis obras que antecederam essa interpretação, pelo convívio com o autor em questão, pela adaptação às condições acústicas do espaço e às condições artísticas do grupo que se dirige, pela relação emocional e até física com a obra abordada.
Dizer tudo isso é vazio e insuficiente. Para fazer uma pessoa entender como um artista constrói uma interpretação, seria preciso fazê-la viver na pele desse artista. Impossível sintetizar um processo assim complexo em um parágrafo.

Concertista: Você é regente titular e diretora artística da Orquestra Filarmônica de Montevidéu (OFM). Fale um pouco sobre o seu trabalho nessa instituição e do mercado latino americano para a música de concerto.
Ligia Amadio: Meu trabalho como diretora artística da OFM se desenvolve de maneira semelhante ao trabalho que realizei em orquestras de outros países. Sou responsável pela programação artística da orquestra como um todo, tanto pela temporada principal, no teatro Solís, como por todos os concertos em outros teatros e locais de concerto.

Em relação a um “mercado latino-americano para a música de concerto”, não me sinto preparada para opinar sobre um universo tão amplo como esse, do qual conheço uma pequena parcela. Conheço parte da vida musical (de concerto) de Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, México, Panamá, Peru, Venezuela e Uruguai. Quase todos esses países têm uma vida musical (de concertos) muito intensa, cada um com suas peculiaridades e com suas diferenças de “mercado”, mas também respondendo a um critério internacional, que é o da música clássica ocidental.

Concertista: Apesar da proximidade com outros países do continente, poucas orquestras e solistas latino-americanos se apresentam no Brasil. Como podemos aumentar esse intercâmbio?
Ligia Amadio: Pode-se dizer exatamente o mesmo em relação às orquestras brasileiras, que também não se apresentam em seus vizinhos latino-americanos. Creio que isso se deve a dois fatores: primeiramente, o fator financeiro, que restringe determinantemente a possibilidade de uma orquestra viajar e de realizar turnês; em segundo lugar, a eterna mirada colonialista dirigida à Europa e aos Estados Unidos. Tampouco se olha para a Ásia, para a África, para o Leste europeu, etc.

Para aumentar esse intercâmbio, é necessário ampliar a cultura, diminuir os preconceitos, alargar a visão. Conhecemos tão pouco deste mundo fascinante que nos rodeia…

Concertista: Para você, como deve ser o relacionamento do regente com a orquestra e o solista?
Ligia Amadio: O melhor possível: profissional, respeitoso, amigável, companheiro.

Concertista: O que diria ao jovem estudante que deseja viver da profissão de maestro?
Ligia Amadio: A resposta que espontaneamente me surgiria, devido às dificuldades de uma profissão sem oportunidades de trabalho, sem segurança de espécie alguma, sem a proteção da estabilidade, seria: “Está seguro(a)?”. Uma resposta mais poética, porém, é a que me deu Kurt Masur em 2001, quando – em uma época em que eu me sentia especialmente cansada e desanimada – lhe perguntei como ele conseguia manter o entusiasmo juvenil em todos os seus ensaios, àquela altura de sua carreira (ele tinha então cerca de 74 anos). Sua resposta foi: “Minha filha, a nossa é a melhor profissão do mundo!”. ◆

Foto: Kike Barona


ligiaamadio.net

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