Especial

Mozarteum Brasileiro

A vibração de uma ideia que mudou a cena musical do país

 

Instituições bem sucedidas exibem, em geral, marcadores mensuráveis, tais como: longevidade, comprometimento e excelência dos profissionais envolvidos, retorno para a sociedade, visão de longo prazo, entre outros. Porém, é raro encontrar, na área da cultura, tais instituições, e mais raro ainda é encontrar uma instituição como o Mozarteum Brasileiro, que reúne todos esses atributos e muitos outros.

Essa história inspiradora começou em 1981, graças à determinação da alemã Sabine Lovatelli, que, após fixar residência no país, sentiu falta de temporadas regulares de concertos na cidade de São Paulo. Decidiu, então, que faria algo para mudar essa realidade. E mudou. Após 37 anos de atividades, os números (e a qualidade) dos resultados impressionam: 1.477 espetáculos, que reuniram 14.606 artistas internacionais e 6.851 nacionais, mais de 2,2 milhões de espectadores e 660 bolsas de estudos, ações educativas e sociais, somados ao Festival Música em Trancoso e à Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro.

O primeiro concerto foi liderado pelo maestro Lorin Maazel, à frente da Cleveland Orchestra. O sucesso foi imediato, e uma relação de amizade se formava entre a instituição e a capital paulista. Em seguida, desembarcaram no país a National Symphony Orchestra, a New York Philharmonic, o violoncelista russo Mstislav Rostropovich e o maestro indiano Zubin Mehta. Era o começo de uma seleção de renomados artistas que passariam a figurar em nossas salas de concertos. Com o Mozarteum Brasileiro entrávamos definitivamente no circuito internacional da música erudita. Um pouco mais dessa história é contada a seguir, por Sabine Lovatelli e Carlos Moreno.

 

Sabine Lovatelli

Mozarteum Brasileiro pelo olhar de sua criadora, alma e coração

Foto: Marcos Hermes

É fundamental a compreensão dos governantes de que a cultura é a base do desenvolvimento, do progresso de um país.

Concertista: O Mozarteum Brasileiro foi criado em 1981, época na qual a música erudita tinha pouco espaço na programação cultural do país. Passados 37 anos, quais foram os maiores desafios enfrentados nesse período?
Sabine Lovatelli: No início, era importante convencer os artistas internacionais, fazê-los acreditar no Brasil, no público caloroso, na infraestrutura boa de teatros e hotéis, e fidelizar nosso público também foi desafiador. Nos considerávamos os embaixadores da música clássica. Após alguns anos de programação, os contatos internacionais ficaram bastante fáceis, e o Brasil se tornou uma das destinações preferidas para turnês de orquestras. Desde o início de 1981, temos total apreço pela educação e queríamos utilizar a nossa organização para difundir a música clássica e facilitar o acesso para todos. Insistimos na nossa meta, e acho que conseguimos.

Concertista: Em 2012, foi feita a primeira edição do Canto em Trancoso. Vocês pretendem levar a programação da instituição para outras cidades?
Sabine Lovatelli: O Canto em Trancoso já tem dimensão nacional. Divulgamos o programa via internet para o Brasil inteiro para, depois, escolher, entre as centenas de inscrições, os 50 melhores alunos que recebem as bolsas de estudos. O programa é muito concorrido. Em 2017, participaram alunos vindos de oito estados do Brasil. Em 2018, tivemos participantes de nove estados. Trancoso é a nossa sede de atividades educativas, porque lá temos as instalações adequadas para receber professores e alunos e garantir o melhor resultado de aulas para todos.

Concertista: Além dos concertos, o Mozarteum Brasileiro apoia a formação de jovens músicos. A educação é um dos pilares da instituição?
Sabine Lovatelli: Sim, a educação é tão importante quanto outro pilar, o de fomentar a música clássica no Brasil, país que tem pouca tradição no gênero. Entre todas as atividades socioeducativas e culturais que promovemos, estão apresentações gratuitas de grandes orquestras, masterclasses com expoentes da cena erudita internacional e concertos de peças tradicionais adaptados para crianças, para que, desde cedo, possam se familiarizar com o gênero. Até o momento, conseguimos conceder 660 bolsas de estudos, sendo que 153 foram para instituições na Europa, 186 para o Canto em Trancoso e 321 para a Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro (OAMB). E o concerto Noite das Estrelas, que realizaremos em outubro, na cidade de São Paulo, irá prestigiar jovens expoentes da música e do canto clássicos. Todos foram bolsistas da instituição e muitos deles já desenvolvem carreira internacional. Serão 12 jovens artistas que se apresentarão com a nossa orquestra, a qual também representa uma contribuição ao desenvolvimento musical no Brasil.

Concertista: Com base na sua experiência como produtora, em quais frentes precisamos trabalhar para que a música erudita tenha maior inserção na vida cultural do país?
Sabine Lovatelli: Providenciar o acesso à educação e à cultura é um dever do governo. É fundamental a compreensão dos governantes de que a cultura é a base do desenvolvimento, do progresso de um país. Existem muitas iniciativas privadas para ajudar, como estamos fazendo há 37 anos, mas é importante que o governo inclua as disciplinas de música, arte e até esporte nas escolas, desde os primeiros anos de estudo, para educar as crianças e facilitar os seus caminhos para uma existência crítica, criativa e digna. Deveria haver mais iniciativas do governo para a criação de eventos exclusivos para crianças, como se faz, por exemplo, na Rússia, na Europa, na Ásia, nos Estados Unidos, dentre outros, e mais incentivos para cultivar iniciativas privadas de ensino da música como as do Mozarteum.

Concertista: O Mozarteum Brasileiro está próximo de completar 40 anos. Qual o balanço que a senhora faz do que foi feito até aqui, e como gostaria que fossem as próximas quatro décadas da instituição?
Sabine Lovatelli: Estamos orgulhosos da nossa trajetória. Trouxemos as mais famosas orquestras, maestros e solistas ao Brasil e consolidamos um nome respeitado não somente no Brasil como também mundo afora. Criamos uma rede de instituições internacionais que colaboram conosco no programa de bolsas de estudo, facilitamos o acesso gratuito para a música clássica através de concertos ao ar livre, aulas e ingressos gratuitos nos concertos. Queremos continuar nossa trajetória e ampliar todas estas iniciativas. Por isso, precisamos não somente do reconhecimento da população e das empresas patrocinadoras, mas também do apoio do governo para facilitar o nosso trabalho.

 

Carlos Moreno

Maestro tem a importante missão de lapidar os jovens talentos

 

Divulgação © Mozarteum Brasileiro

A música que considero clássica é aquela que, por se ligar a necessidades da existência humana, ultrapassando modismos, eleva e altera nossas emoções e nutre verdadeiramente a alma da criança, do ser humano.

Concertista: Em 2016, o senhor criou, em conjunto com o Mozarteum Brasileiro, a orquestra acadêmica da instituição – OAMB. Quais os objetivos que deseja alcançar à frente da OAMB? As orquestras acadêmicas e experimentais podem desempenhar um papel importante na formação dos jovens músicos?
Carlos Moreno: A criação da Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro surgiu em um momento sensível, quando se vivia o desmantelamento de importantes grupos musicais em território nacional. A nossa orquestra pretende promover a continuidade de estudos e os aperfeiçoamentos na área da prática orquestral, fomentando ainda todas as demais possibilidades para uma completa formação musical. Objetivamente falando, nós do Mozarteum Brasileiro temos um especial olhar para esta faixa etária e acadêmica, entre os 18 e 25 anos de idade, uma vez sabendo que é justamente nesse período que as chances para uma futura profissionalização de sucesso se define. A OAMB, entretanto, é aberta também a músicos já profissionais que compreendem que se aperfeiçoar e se capacitar é uma ação constante de quem ama a sua área e nela busca a atualização de conceitos gerais. É importante dizer também que o Mozarteum Brasileiro, dirigido por Sabine e Carlo Lovatelli, possibilitando aos músicos de nossa orquestra conviverem com solistas, referências mundiais, imediatamente fez a sua diferença junto a esse movimento de formação e aprimoramento musical e orquestral.

Concertista: O senhor realizou, em parceria com o Núcleo Neojibá e o Instituto Trancoso, o 1º Workshop de Inverno – Práticas Musicais e Pedagógicas. Esse projeto visa formar e qualificar músicos da cidade de Trancoso?
Carlos Moreno: Convivendo já há quatro anos com a realidade da Vila de Trancoso, realmente percebi que capacitar professores que optaram por lá viver, assim como em vilas vizinhas, é a chave para que se tenha um trabalho sólido de formação musical de crianças e jovens, a exemplo do que já ocorre no município de Teixeira, na Bahia. Desde julho de 2017, iniciei um trabalho de apoio diretamente aplicado aos alunos do Instituto Trancoso/Núcleo NEOJIBA. Nesta busca por um desenvolvimento da música regional, criamos em janeiro deste ano a Orquestra Jovem de Verão – Sociedade Sinfônica de Trancoso, presidida e conduzida pelos próprios jovens da vila, com apoio de vários chairs – madrinhas e padrinhos, entre eles Carlo Lovatelli e este Maestro. Organizar este 1º Simpósio em Pedagogia Musical foi uma ação que ultrapassou as expectativas. Detectamos e munimos esses professores regionais de uma sólida formação, que também gerou uma vontade, uma sinergia regional em torno de uma mesma ação que é o ensino musical que naturalmente busca uma maior qualidade.

Concertista: Ao longo de sua carreira, o senhor participou de vários projetos de formação de jovens músicos. Percebe um crescente interesse deles em estudar música clássica?
Carlos Moreno: Hoje o número de crianças e jovens que tem acesso à aprendizagem musical é absurdamente maior do que a 40 anos atrás. Acredito que os projetos aplicados nas igrejas evangélicas e nos projetos sociais são os principais responsáveis por isso. Também as orquestras, não só no Brasil como mundo afora, perceberam a importância de criar um novo público consumidor de música, por assim dizer, e fazem, em suas temporadas, projetos de alta qualidade destinados a alcançar o público infanto-juvenil, incentivando-os a aprenderem instrumentos de orquestra, canto coral e também o balé. O desafio, entretanto, é que somos um país continental que tem menos orquestras e boas salas de concertos do que um país como a Suíça, com seus 8 milhões de habitantes.

Concertista: No seu livro Do Arteiro ao Artista – Caminhos Cognitivos para a Aprendizagem Escolar, o senhor propõe a imersão de crianças no universo da música clássica. Como funciona essa abordagem pedagógica?
Carlos Moreno: Esse livro foi escrito sob a reflexão de quais ações a música pode colocar a serviço de uma educação contemporânea, cognitiva, emocional. Por um ano, esse livro, que, na verdade, também é um método, foi aplicado em uma EMEIEF (Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental) no município de Santo André, em São Paulo. Os resultados alcançados favoráveis à construção de um ambiente mais propício às aprendizagens foram realmente impressionantes. A base é simples: ao observarmos que a música, sons ativadores do sentimento humano, é capaz de construir e orientar ambientes, basta nos sintonizarmos. A música que considero clássica é aquela que, por se ligar a necessidades da existência humana, ultrapassando modismos, eleva e altera nossas emoções e nutre verdadeiramente a alma da criança, do ser humano.
Muito obrigado por este espaço e sucesso! ◆

www.mozarteum.org.br


Publicado na 3ª edição da revista CONCERTISTA

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