Os dias, as horas, os minutos e principalmente o silêncio que precede um concerto podem provocar uma avalanche de emoções no intérprete: do estresse paralisante ao mais elevado grau de excitação. Essa montanha russa de emoções – capaz de enterrar carreiras, assustar músicos experientes e apavorar os iniciantes – é uma realidade na vida do artista e, por isso, ele deve refletir sobre ela.

Não há como negar: a interpretação e a performance são a arte do intérprete, e o palco é o local ideal para que essa arte seja exercida com realismo e maestria. É nele que o instrumentista ou cantor se coloca como o mediador apto a revelar ao público as nuances de uma obra. Portanto, conhecer as estratégias, o método de trabalho e de estudo de um concertista é um caminho para transformar a performance num ato cada vez mais orgânico.

A fim de entender a complexa rede de detalhes que fazem uma apresentação memorável e um músico de alto desempenho, conversamos com a pianista Érika Ribeiro. Musicista com ampla experiência no ofício de tocar em público – seja como solista, camerista ou na companhia de uma orquestra –, Érika revelou, nesta entrevista, sua relação com o palco, a preparação para um concerto, a importância do intérprete conhecer em profundidade a linguagem estilística do compositor, assim como as habilidades requeridas do pianista em diferentes situações de performance.

Para que a música aconteça precisamos estar envolvidos com ela, pois é ela que nos move.

Concertista: Como é a sua relação com o palco? Caso tenha, como você lida com os momentos de ansiedade antes e durante a performance?
Érika Ribeiro: A performance ao vivo é um componente importante da vida do intérprete, de modo que estamos sempre procurando aprimorá-la em público. Ao longo dos anos, fui trabalhando minha relação com o palco, e hoje me apresentar para uma plateia é algo natural. Estar no palco é a hora de compartilhar o que temos de mais valioso para oferecer, a música, e quanto mais estivermos focados nisso, mais orgânico todo esse processo se torna.

Outro aspecto interessante é que, por mais que a gente prepare exaustivamente uma determinada peça, no palco, a obra adquire contornos diferentes daqueles treinados em casa. O formato, a acústica da sala e também a adrenalina do concerto atribuem uma cor diferente à música, e os resultados podem ser surpreendentes.

Concertista: Como você se prepara no dia de um concerto? Prefere descansar ou tocar o repertório?
Érika Ribeiro: O dia do concerto é um momento de intensa concentração. Como a rotina de vida do músico pode ser muito corrida, no dia da apresentação sigo um ritual que possibilite que eu me sinta descansada de forma a garantir energia total na hora do concerto. Gosto de repassar trechos, rever andamentos, mas nunca toco o programa todo neste dia. É mais ou menos como se preparar para uma prova de atletismo: você deve se sentir aquecido, porém não irá executar o trajeto inteiro antes da hora da prova.

Procuro sempre me inserir dentro do determinado período, estilo do compositor em questão, aproximando-me de suas principais referências e também de suas influências musicais.

Concertista: Existe uma diferença significativa para o solista, no plano interpretativo e na técnica do instrumento, entre um concerto solo, de música de câmara e com orquestra?
Érika Ribeiro: Como pianistas, estamos muito acostumados a tocar sozinhos, mas acredito que um aspecto maravilhoso da nossa profissão é poder tocar com outros músicos. A preparação para se tocar música de câmera é um pouco diferente, pois deve compreender, desde o princípio, a interação, muitas vezes com pessoas com quem se tem pouca ou nenhuma intimidade.

No que se refere à técnica, as três atividades requerem habilidades distintas do pianista, por exemplo, o solista de orquestra deve saber se adaptar com rapidez à orquestra e deve cuidar bastante da projeção do som do piano; já o pianista camerista deve ter o ouvido bastante atento, reagindo às flutuações de tempo, fraseado, dinâmicas, cuidando para manter o equilíbrio sonoro de seu ensemble. Todos esses fatores acabam por alterar o modo com que o pianista concebe a preparação e interpretação de cada peça.

Concertista: Uma obra pode conter referências externas a sua estrutura musical, tais como: paisagens, cores, lugares, memórias do compositor, etc. Frente a tantas possibilidades, como você constrói as suas interpretações?
Érika Ribeiro: Um bom intérprete conhece a linguagem estilística do compositor e suas características (de que forma utiliza suas indicações, como era o instrumento que utilizava na época, quais tipos de instrumentação estão presentes em suas obras, etc); assim, procuro sempre me inserir dentro do determinado período, estilo do compositor em questão, aproximando-me de suas principais referências e também de suas influências musicais.

Quando inicio os trabalhos em uma obra nova, há também um resgate dos parâmetros já trabalhados em peças anteriores. Por exemplo, sinto que foi mais muito fácil compreender a Sonata para Violino e Piano de Ravel, depois de ter tocado o Concerto em Sol e a ópera L’Enfant et les Sortiléges tantas vezes. Quanto às referências extra-musicais, elas também colaboram para o desenvolvimento de uma imaginação musical e a possibilidade de entender as motivações que o levaram a compor determinada obra.

Acho que o principal e o mais difícil na carreira de um pianista é manter um equilíbrio entre a paixão pela música e a disciplina.

Concertista: O que você considera indispensável na formação de um pianista?
Érika Ribeiro: Acho que o principal e o mais difícil na carreira de um pianista é manter um equilíbrio entre a paixão pela música e a disciplina. Ser pianista não é como ter um trabalho de escritório, para que a música aconteça, precisamos estar envolvidos com ela, pois é ela que nos move. Por outro lado, o músico profissional lida constantemente com prazos, viagens, expectativas e, por incrível que pareça, nem sempre está tocando aquilo que mais gostaria no momento. Por isso, para que ele esteja pronto, precisa desenvolver uma disciplina de estudo que garanta sua performance.

Dentro dessa realidade, acredito que o mais indispensável durante a formação do pianista é que ele esteja atento e consciente para que possa se conhecer profundamente, observando como se comporta em determinadas situações de performance e preparo das peças e sabendo quais são seus limites para expandi-los, podendo, assim, desenvolver ao máximo suas habilidades. ◆

Foto: Aline Müller


Artigo publicado no primeiro número da revista CONCERTISTA.

 

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