O universo da música erudita é habitado por músicos de altíssimo nível técnico e musical. É exigido do intérprete um domínio total do instrumento e um amplo conhecimento da estrutura musical. Tornar-se um concertista de alta performance é trabalho para uma vida, o que torna quase inviável se aventurar além dos domínios do próprio instrumento. É raríssimo encontrar um músico capaz de fazê-lo.

Emmanuele Baldini, violinista italiano radicado no Brasil, cruzou a fronteira do instrumento e encontrou na regência o lugar ideal para expandir seu pensamento musical. Não que o violino limitasse sua criatividade, Baldini é um mestre no instrumento. Sua discografia é ilustrativa de seu extraordinário talento de instrumentista. São 23 CD´s que mostram o alcance de sua técnica, musicalidade e virtuosismo. Suas gravações contemplam obras que cobrem um grande espectro da música de concerto. De Paganini a Mendelssohn, de John Cage a Camargo Guarnieri.

Baldini nasceu na cidade italiana de Trieste e iniciou sua formação musical no ambiente familiar. O pai, Lorenzo Baldini, foi pianista e professor, e a mãe, Eletta Baldini, professora de teoria e solfejo. Os primeiros educadores foram naturalmente eles, que legaram ao filho o amor pela arte e pelo instrumento. Posteriormente, Ruggiero Ricci (1918 – 2012) e Corrado Romano (1920 – 2003), dois entre os maiores violinistas do século XX, deram a Emmanuele a dimensão do que é ser um artista.

O violinista é um músico comprometido com a música. A frase pode parecer óbvia, afinal, todo músico tem (ou deveria ter) esse princípio. Nem todos o têm. Felizmente, Baldini está entre aqueles intérpretes que nutrem um profundo respeito pela arte, pelos compositores e pelas obras que interpreta.

Nesta entrevista, o spalla da Orquestra Sinfônica do Estado de São (OSESP) fala sobre a chegada ao Brasil, o cenário cultural do país, a importância de buscar uma formação musical integrada com outras linguagens artísticas, entre outros assuntos. São palavras de um músico que tem a música como abrigo, refúgio, confidente, companheira e missão de vida.

As artes estão ligadas intimamente, e vejo ainda poucos explorarem esse caminho, o qual abre mente e cérebro para que a imaginação e a criatividade possam voar muito mais alto.

Concertista: Quando chegou ao Brasil, em 2005, você já possuía uma sólida e respeitada carreira. Esse fato lhe permitiu ser, ao mesmo tempo, um músico importante no nosso cenário musical e, também, um espectador do que se fazia aqui. Passados 13 anos, qual o seu olhar sobre a vida musical do país?
Emmanuele Baldini: Sim, já tinha tido experiências de spalla em Bologna, com Daniele Gatti, diretor musical; em Trieste, minha cidade; e na “Scala” de Milão com Riccardo Muti, diretor musical. Além disso, tocava muito em toda a Europa, com meu pai ao piano e com meu Quarteto “Agorá”. Cheguei ao Brasil com muitas ideias, mas consciente de que antes precisava conhecer o novo cenário no qual estava movendo meus primeiros passos. Por isso, passei os primeiros anos explorando e conhecendo, com curiosidade e entusiasmo, a vida musical fora daquela “ilha feliz” que era a Osesp.

Depois de 13 anos, posso dizer que fico feliz em constatar que mais orquestras trilharam o caminho que a Osesp abriu, e também fico feliz de perceber que, apesar dos problemas e dos obstáculos crônicos, temos uma vida musical mais rica agora que há 14 anos; certamente mais rica, tanto em oferta assim como em qualidade. Esse sintoma mostra que, se a música e a arte em geral, no nosso país, tivesse pelo menos um pouco mais de apoio, poderíamos ser uma referência absoluta.

Concertista: Você orientou muitos jovens violinistas ao longo de todos esses anos no país. Como você observa a formação musical dos nossos estudantes? Você identificou muitos problemas técnicos e musicais na formação deles?
Emmanuele Baldini: Instrumentalmente não vejo grandes problemas. Temos ótimos professores dos mais variados instrumentos e, do ponto de vista técnico, o nível cresceu muito nesses últimos anos. Mas eu insisto em algo que é ainda muito deficitário: a mentalidade segundo a qual o instrumento é um meio ao serviço da música, e a música uma linguagem artística. Um número cada vez maior de bons instrumentistas não significa necessariamente uma grande quantidade de artistas. Não é possível ver jovens violinistas se matando para tocar uma peça virtuosa de Sarasate e não conhecer os Quartetos de Beethoven; ou tocar Ravel sem ter curiosidade de aprofundar os impressionistas na pintura. As artes estão ligadas intimamente, e vejo ainda poucos explorarem esse caminho, o qual abre mente e cérebro para que a imaginação e a criatividade possam voar muito mais alto…

Concertista: Considerando a sua fala anterior, a formação dos músicos também deveria incluir um diálogo com outras artes, a fim de obter uma interpretação artisticamente mais elaborada?
Emmanuele Baldini: Absolutamente sim. Eu acredito que as últimas décadas viram uma tendência muito grande a uma especialização, em todos os campos. Sobre isso tenho uma opinião muito clara, obviamente crítica, mas ainda mais crítica é a minha visão quando nos referimos à música e à arte: uma linguagem artística não pode ser isolada das outras e, quando isso acontece, o artista vira um funcionário de uma fábrica de produtos. No meu pequeno mundo, tento incentivar os jovens a ler livros, a admirar pinturas e esculturas, a se envolver mais em colaborações artísticas de vários tipos.

O gosto pelo domínio cada vez maior do próprio instrumento deve seguir paralelamente a um refinamento e a uma sofisticação no próprio gosto musical.

Concertista: O violino é um instrumento assombrado pelo mito do virtuose. Parece existir uma pressão para que todo violinista sempre toque peças virtuosísticas. Quais os cuidados que o estudante deve ter para que essa pressão não influencie negativamente os seus estudos?
Emmanuele Baldini: Em princípio, não acho ruim ter o prazer de explorar as possibilidades técnicas e expressivas do nosso instrumento. Eu mesmo passei um certo período da minha formação frequentando o repertório mais desafiador do ponto de vista instrumental, mas, amadurecendo, o estudante precisa se conscientizar de que nosso aperfeiçoamento musical tem objetivos mais nobres que a ostentação do virtuosismo e da velocidade. Como sempre, a resposta está no equilíbrio. O gosto pelo domínio cada vez maior do próprio instrumento deve seguir paralelamente a um refinamento e a uma sofisticação no próprio gosto musical.

Concertista: O repertório para violino é amplo e variado. Selecionar e organizar os estudos é um desafio tão grande como tocar o instrumento. Quais obras você considera indispensáveis na formação do violinista?
Emmanuele Baldini: O violino nasce com a música barroca. E nada como a música barroca pode servir a afinar o gosto e a moldar o som. Eu vejo logo quando algum violinista possui uma bagagem importante de música barroca em seu histórico, é só prestar atenção no arco e na variedade (ou na falta de variedade) de ataque entre arco e corda. Portanto, muita música barroca para começar; depois, Bach, que, embora seja barroco, está fora do espaço e do tempo; os Estudos de Kreutzer, que são uma bíblia da técnica violinística; os Caprichos de Paganini; muito Mozart e os clássicos. Entre os clássicos, eu daria uma ênfase muito grande à música de câmara, que tão pouco explorada é no nosso país. Por fim, eu deixaria sempre um espaço para a música contemporânea, que impõe desafios novos aos que se aventuram nesse terreno insidioso.

Concertista: Vivemos um momento no qual a disciplina, o foco e a paciência estão cada vez mais raros. Muitos buscam resultado imediato em quase tudo que fazem, inclusive ao tocar um instrumento musical. Em meio a esse caos, como manter a concentração nos estudos?
Emmanuele Baldini: Organização e resistência. A resistência ao cansaço se constrói desde criança. E por isso, agradeço aos meus pais, que nunca deixaram de me mostrar, com o exemplo, a verdade de que a qualidade do estudo é a prioridade número um, e a quantidade serve para criar uma resistência da qual todos precisam quando começam a trabalhar profissionalmente. Se não tivesse esse hábito da resistência, nunca conseguiria fazer tudo o que faço hoje, paralelamente a meu trabalho na Osesp. Além da resistência, a outra prioridade é a organização. Saber como dividir o tempo do qual dispomos é fundamental.

Concertista: Você foi aluno de Corrado Romano e Ruggiero Ricci. Qual o legado que eles deixaram em sua formação pessoal e musical?
Emmanuele Baldini: Corrado Romano foi um grande didata. Nele reconheço meu ideal de professor, que ensinava a Sonata de Franck falando de Verlaine, e com o qual podia gastar um jantar inteiro falando de Nietzsche. Além disso, sua abordagem de qualquer peça era tão profunda que é impossível não me lembrar dele cada vez que volto a tocar obras que me foram passadas através de suas aulas.

Ricci me deu o que me faltava: o senso prático. A experiência de dezenas e dezenas de anos de palco fazia dele um grande “pragmático”: isso funciona, isso em público é muito arriscado, esse dedilhado funciona muito melhor… etc. “Experiência de palco”, como dizia. E, ao mesmo tempo, representa uma ligação direta com a época de ouro dos grandes violinistas. Ricci deixa uma marca eterna em quem teve a sorte de ter essa proximidade.

Acredito que nada possa ser mais satisfatório que fazer na vida o que é uma íntima necessidade. Se a música for isso, seguir esse caminho é a única opção para sermos realmente felizes.

Concertista: Atualmente você exerce as atividades de instrumentista e regente. A princípio, parece complexo um músico exercê-las em conjunto. Como você concilia o estudo do violino com o da regência?
Emmanuele Baldini: Entre violinista e regente, pode existir uma certa diferença, mas, se observamos o trabalho do spalla e do regente, essa diferença se reduz amplamente. Eu acho que ser regente é o natural desenvolvimento do spalla. O spalla já exerce um trabalho de “coordenador”, de “organizador” e também, por que não, de “inspirador”. Gestualmente o spalla aprende logo a importância de certos movimentos que facilitam os ataques juntos, ou certos respiros que possam resultar no mesmo tipo de som… Então, acho que, depois de anos e anos de experiência como spalla, é quase uma evolução natural passar a reger. Conciliar o estudo é questão de organização, mas não é diferente de conciliar o estudo de dez obras diversas no violino, assim como acontece frequentemente em minha vida…

Concertista: Existe uma diferença significativa no seu pensamento musical quando interpreta obras orquestrais como instrumentista e como regente?
Emmanuele Baldini: Estudar regência abriu meus “olhos musicais”. O violinista tem uma tendência a considerar a linha musical que toca como o centro da obra. Em alguns casos, como, por exemplo, em alguns Concertos para violino (não em todos!), ele é de fato o protagonista, mas, em muitas outras obras, solísticas ou de Câmara, ou sinfônicas, o violinista é parte de um todo, um membro de uma grande família musical. E nessa família musical, os indivíduos falam, perguntam-se e se respondem, discordam, fazem as pazes, amam-se e se detestam… Mas você, violinista, é só uma pequena parte disso tudo, e essa é a música: um perfeito espelho da sociedade. Pensar a música como um regente significa (ou melhor: deveria significar) aprender o valor da convivência, da tolerância, do respeito de cada uma das vozes e instrumentos que compõem uma peça musical. Todo instrumentista deveria fazer essa “terapia benéfica”.

Concertista: O ato de gravar exige concentração e perícia. Como é o seu preparo musical, físico e mental para esse momento?
Emmanuele Baldini: Eu adoro gravar. Mesmo sabendo que a música é uma arte abstrata, que existe agora e que este momento nunca poderá ser repetido, adoro a ideia de ter a possibilidade de uma “foto” de um momento musical, guardada para sempre. Por causa disso, tento chegar, no primeiro dia de gravação, com a consciência de que minha missão é deixar um registro que seja o mais representativo possível de minha visão daquelas peças naquele momento da minha vida. É uma grande responsabilidade, da qual sinto o peso e o privilégio, mas é bom ter muitos pequenos testemunhos sonoros de meu percurso artístico.

Concertista: O estúdio de gravação é um local no qual você gosta de estar e tocar?
Emmanuele Baldini: Procuro me sentir em casa. Gravo descalço, sentindo o contato com o chão. Isso me dá a sensação de estar num ambiente familiar. É importante que o lugar da gravação tenha todas as características técnicas e acústicas necessárias, mas é fundamental que possa ser um “lar”, mesmo que por alguns dias somente. Prezo muito por esse detalhe.

Concertista: Gostaria que falasse aos estudantes que sonham em viver da profissão de músico, mas estão inseguros de não conseguirem uma boa remuneração ou trabalho regular.
Emmanuele Baldini: Acredito que hoje não exista profissão que não deixe certos medos em relação ao futuro. O mundo é inseguro, e o futuro do próprio mundo é um mistério. Por outro lado, somos nós que o criamos. Depende de nós. É muito fácil culpar os políticos, os vizinhos, o povo… mais difícil é fazer uma auto-análise e tentar perceber se estamos dando um bom exemplo, se estamos exercendo nosso papel para que nossos filhos possam ter um mundo melhor.

Acredito que nada possa ser mais satisfatório que fazer na vida o que é uma íntima necessidade. Se a música for isso, seguir esse caminho é a única opção para sermos realmente felizes. Nenhuma dificuldade é maior que o arrependimento de ter largado a própria missão. Sim, pois a música não é só um trabalho. É uma missão, e quem é chamado a ela não vai viver feliz mudando o caminho. Perseverar, com paixão, curiosidade e teimosia. Acredito ser esse o único caminho para fazer do mundo um lugar mais belo e profundo.

Foto: Hermanas Vasconcelos


emmanuelebaldini.com

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