Brain washed, brain dead é uma peça composta em 2017, para vídeos e três músicos com instrumentação indefinida. Foi baseada na teoria do filósofo estadunidense Noam Chomsky sobre o controle da opinião pública pelos meios de comunicação de massa. Optei por trabalhar com essa temática por um interesse pessoal e por acreditar que o público dialoga melhor com uma obra ao identificar nela elementos da sua vida cotidiana, sendo convidado a refletir sobre si mesmo.

A peça contém três seções nas quais aplico musicalmente os conceitos de Chomsky:

1. O filósofo explica o poder de convencer aos poucos uma população a aceitar como necessárias certas medidas políticas inaceitáveis. Censurando essa explicação, uma textura musical, com gestos repetitivos, é gradualmente construída. Adicionam-se, então, vídeos de noticiários que repetem certas palavras. Logo após, apoiados por uma textura instrumental de ressonâncias com efeitos de distorção, outros vídeos mostram as consequências dessas repetições no pensamento coletivo.

2. Explorando a ideia de infantilização do público e a exploração do sensacionalismo, como forma de impedir o raciocínio crítico, a música evolui em direção a pulsações graves em forte, servindo de base a diversos vídeos de programas de entretenimento.

3. O filósofo volta a apresentar seu pensamento sendo interrompido por vídeos que mostram reações radicais de pessoas em relação a diversos assuntos atuais. O instrumental responde a esses vídeos com gestos bruscos em distorção. Bombardeando essa textura, vídeos de publicidade fazem referência à estratégia de distração midíatica. Finalizando a peça, sons de ruído branco metaforizam a ausência de senso crítico social.

Entre novembro de 2017 e janeiro de 2018, viajei entre Argentina, Brasil e Colômbia para desenvolver a peça com músicos locais. Com o objetivo de coletar vídeos de programas recentemente difundidos na televisão nacional, discuti com os intérpretes sobre a mídia e a vida política e social local. Colhi e acomodei esses vídeos na estrutura musical descrita acima. Em uma partitura, ao invés de indicações tradicionais de altura e ritmo, expliquei de maneira gráfica e textual os gestos e as texturas a serem desenvolvidas pelos músicos. Ao escolher esse tipo de escrita, optei por uma certa indeterminação, fazendo com que cada performance seja única e reflita a personalidade e o estado atual de cada ensemble.

Com diferentes intérpretes, instrumentações e materiais visuais, a peça teve quatro versões. Uma foi criada em colaboração com Ana Maria Ruiz Valencia (violino) e Angela Martial (arte sonora), durante o Festival en Tiempo Real em Bogotá, na Colômbia. Outra foi desenvolvida dentro do Festival Caja Negra, em San Juan, na Argentina, com Karim Nhon (guitarra), Lorenzo Gomez Oviedo (piano) e Valentina Spina (violino). Outras duas foram feitas em Belo Horizonte, no Brasil, primeiramente dentro do projeto SESC Partituras com vídeos brasileiros e, por último, dentro do VAC2018 com vídeos da mídia argentina, brasileira e colombiana. Ambas foram trabalhadas com Matthias Koole e Nathália Fragoso (guitarra) e Pedro Filho (sanfona). Uma nova versão será apresentada em Montreal, no Canadá, mostrando ao público canadense o contexto político e social atual desses países da América do Sul.


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